A tela do celular exibe uma Bahia que avança, mas basta olhar pela janela para ver o coração econômico da terceira maior cidade do estado agonizar sob placas de “Aluga-se”.
Há um abismo crescente entre a cidade retratada nas peças publicitárias e aquela percorrida diariamente por quem vive e trabalha em Vitória da Conquista. De um lado, as campanhas recentes do governo estadual, lideradas pelo governador Jerônimo Rodrigues, invadem as redes sociais com vídeos bem editados, trilhas sonoras vibrantes e promessas de entregas e prosperidade. Do outro, os próprios moradores registram e compartilham uma narrativa muito mais crua e dolorosa: o esvaziamento do comércio local.
Para a população que assiste a ambos os cenários, o sentimento predominante é uma mistura de frustração, descrença e indignação.
A Sensação de Incredulidade
Quando o cidadão conquistense assiste à propaganda oficial, o primeiro impacto é a dissonância cognitiva. O marketing político tenta vender a imagem de um estado cujos resultados chegam a todos os cantos. No entanto, para o comerciante da Avenida Siqueira Campos ou para o consumidor que passeava pela Praça Barão do Rio Branco, essa mensagem soa como uma ficção distante.
Como celebrar avanços genéricos quando redes históricas, como a Casas Bahia, encerram suas atividades no centro? Como aplaudir a “Bahia do trabalho” quando dezenas de vitrines estão cobertas por cartazes de liquidação desesperada e portas de ferro baixadas em definitivo? Para muitos, a propaganda soa quase como um desrespeito à dor de quem está entregando o ponto e demitindo funcionários.
O Cidadão como Repórter da Própria Realidade
É nesse vácuo entre o discurso oficial e a vida real que os vídeos gravados por moradores ganharam tanta força. Eles capturam o sentimento de luto comercial. Não há superprodução, apenas a câmera do celular de um cidadão comum filmando o que antes era um formigueiro de gente e agora parece uma via fantasma em pleno dia útil.
A Busca por Culpados e o Abandono
Esse choque de realidades também gera uma polarização acalorada. Ao verem a deterioração do centro comercial da cidade, os moradores buscam respostas e culpados. O sentimento de abandono institucional é latente.
Conclusão: O Limite da Maquiagem Digital
O que o atual cenário de Vitória da Conquista nos ensina é que o marketing político tem limites impostos pela geladeira vazia e pela porta da loja fechada. A população está cada vez mais vacinada contra narrativas que não se sustentam na calçada.
Enquanto os vídeos oficiais continuarem mostrando uma realidade paralela que ignora o sofrimento dos empreendedores locais, o sentimento das ruas continuará sendo de distanciamento e revolta. Afinal, para quem vê o centro da sua cidade desmoronar, não há propaganda bem-feita que pague a conta do fim do mês.


